O primeiro livro que li, depois dos clássicos infantis “O Soldadinho de Chumbo” e “O Patinho Feio”, foi “O Analista de Bagé”, do Luis Fernando Veríssimo, na 1ª série. Juntando ao gosto inato o incentivo de pais e professores (no colégio quem acertava a tabuada ganhava um livro da famosa Coleção Vaga-Lume), ler, mais do que um hábito ou obrigação de escola/vestibular/faculdade/profissão, virou uma paixão, meio para desenvolver a imaginação, para escrever melhor, desenvolver o vocabulário, tirar lições para o dia a dia, me colocar diante do mundo e relacionar com as pessoas (ou mais do que isso, pois quem já fez uso da frase “sabe, minhas orelhas também estão frias” sabe do que estou falando – a propósito, tal frase é de um conto do supracitado autor).
Portanto, para mim literatura é diversão mas também é coisa séria; a cultura deve ser tratada com o devido respeito.
Dito isso, entro no assunto proposto: por que deixei de adquirir os livros da editora Martin Claret? Porque penso que tal empresa faltou com o princípio antes exposto.
No ano de 2007 a editora Objetiva, administrada pelo grupo espanhol Prisa-Santillana, decidiu entrar no mercado de livros de bolso e abriu negociações para comprar 75% da editora paulista Martin Claret, a fim de começar com um bom número de obras na coleção e postos de venda consolidados no país. Entretanto, a transação foi cancelada após diversas denúncias de que a MC fazia uso de traduções sem pagar pelos direitos das mesmas e, não fosse isso suficiente, até inventando nomes de tradutores – como Alexandre Bóris Popov (tradutor de obras russas…) e Pietro Nassetti (esse, verdadeiro clínico geral, traduzindo de Platão a, pasmem!, Machado de Assis). A Objetiva, como todos sabem, acabou lançando um selo próprio, em 2009 – o muito bom ‘Ponto de Leitura’.
O blog Não Gosto de Plágio, de Denise Bottman, traz em detalhes os absurdos cometidos pela editora Martin Claret, comprovando diversos plágios, entre outras informações e notícias sobre traduções com o mesmo problema – há mais editoras com obras plagiadas no catálogo, como a Madras, Ediouro e Landmark (a lista completa está no mesmo blog citado, clique aqui para acessá-la). Denise, aliás, foi processada pelo dono da MC, mas ganhou a causa na justiça.
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No começo dos anos 2000 adquiri alguns livros da Martin Claret, pois tratavam-se de pockets baratos (preço máximo de R$ 19,90), embora a folha utilizada no miolo e na capa fossem (aliás, ainda são, devo reconhecer) muito boas (um ‘trauma’ de livro de bolso sempre foi página de folha de jornal, material terrível e fácil de estragar) e títulos clássicos difíceis de encontrar em edições novas. No total, apesar das capas – quase sempre ridiculamente bregas ou simplesmente toscas -, adquiri 13 títulos que me interessavam para ‘ler em breve’, imaginando ter feito uma boa escolha.
Ledo engano. Na medida em que fui lendo, comecei a perceber algumas palavras “estranhas” ao nosso vocabulário (n’O Conde de Monte Cristo, por exemplo, há diversas falhas na adaptação do português vigente em Portugal para o ‘nosso’ português); ou uma frase que não ‘fechava’ com o que vinha sendo exposto; ou, ainda, verbos mal colocados; entre outros pequenos ‘detalhes’ que, na soma, acabavam virando gigantescos atentados.
Das 13 obras adquiridas, acabei lendo apenas 4 – e só não fui devolver as demais na livraria para pegar meu dinheiro de volta porque já havia escrito meu nome nas mesmas (ô mania de marcar a propriedade!).
Ano passado, por acaso, descobri a história dos plágios da Martin Claret em uma pesquisa sobre livros no Google. Posteriormente, encontrei relatos de várias obras desta editora carregadas de erros de português. Era o que bastava para eu deixar de “queimar” o meu dinheiro com tal editora.
Plágio é crime.
Código Penal:
Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos:
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.
§ 1o Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.
§ 2o Na mesma pena do § 1o incorre quem, com o intuito de lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito, original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito de artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente. (…)
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Ps: pesquisei no Google “plágio Martin Claret”. Foram encontrados 5.350 resultados. Está tudo lá.
Snaga
/ January 7, 2011Um ato digno de sua parte.
Mas ainda tenho a MC como melhor alternativa quando o quesito é livros raros e clássicos e boa qualidade (apesar de concordar que as capas são horríveis).
Com relação a erros, um ou outro acabo percebendo em meus livros da MC, mas não tanto quanto nos livros da L&PM, que possuem erros grotescos (sem contar o papel de baixíssima qualidade).