Lendo no perigo de uma roda.

Só os livros são eternos.

“Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”, David Foster Wallace

Pág. 118.

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Galveston, O gigante entrado, A arte de produzir efeito sem causa – Nico Pizzolatto, Kazuo Ishiguro e Lourenço Mutarelli

“Galveston” (Nic Pizzolatto, ed. Intrínseca, 234 pág.). Vendido como um thriller, um suspense noir moderno, não passa de um livro pronto para virar um filme de ação de baixo orçamento – aliás, nenhuma surpresa em sendo o autor “criador da série da HBO True Detective”, como está destacado na capa. Não há profundidade nos personagens, tampouco um suspense que prenda a atenção do leitor. A obra é permeada de clichês, em nenhum momento se acredita na história que está sendo narrada. Roy Cady é um “cara durão”, assassino profissional que escapa de uma emboscada armada pelo chefe – outro crápula -, que atualmente namora sua ex-mulher, acompanhado por uma adolescente (Rocky) que testemunhou a ação. Eles fogem, e logo a dupla vira trio quando Rocky leva a filha junto. Depois disso pouco ou nada acontece, situações banais, estúpidas, permeado por um falso ar de “thriller intelectualizado”. Apenas ridículo. Nota 4,0.
“O Gigante Enterrado” (Kazuo Ishiguro, ed. Companhia das Letras, 396 pág.). Primeiro romance do japonês desde “Não me abandone jamais”, de 2005. História fantástica, com ogros, dragões, cavaleiros… Uma história de jornadas: de Axl e Beatrice em busca da superação de um trauma; de Sir Gawain para proteger uma dragoa e de Winstan para matá-la. Uma história de amor, de persistência, de honra, de lealdade. O final é instigante e faz pensar no que teria acontecido a partir dali. Outras observações: uma ou outra passagem faz pensar em “A Divina Comédia”, como o barqueiro (pág. 48) e Beatrice = Beatriz, quem conduz; o último parágrafo da página 52. Névoa do esquecimento remete à “Odisseia”, de Homero. Nota 10
“A arte de produzir efeito sem causa” (Lourenço Mutarelli, ed. Companhia das Letras, 206 pág.). Junior vai morar com o pai após ser traído pela mulher, sair de casa e largar o emprego. No apartamento de sênior mora Bruna, uma estudante de vinte e poucos anos que aluga um quarto. O cenário é de classe média baixa, e a crueza de Mutarelli faz enxergar o sofá puído, a TV de tubo e antena, o copo de requeijão, um maço de cigarros vagabundos, o isqueiro Bic, o ambiente sépia e sem perspectiva que cerca os personagens. Junior não parece ter chance de se reerguer, encontra-se prostrado e procurando culpados pela sua situação. Adiante, misteriosos pacotes com mensagens cifradas começam a chegar para ele, contribuindo para sua decadência também mental. Aos poucos Sênior e Bruna vão se contaminando por Junior e o final não tem qualquer traço de esperança. Bom livro. Nota 8,0

Contra “A garota na teia de aranha” – Millennium não deveria ter sequência.

Chegou ao Brasil, via edição da Companhia das Letras, em agosto, o livro “A garota na teia de aranha”, o quarto da série Millennium, de Stieg Larsson.

É a onda de continuações, já tão popular em filmes de sucesso (por “sucesso” tem-se fundamentalmente o valor da arrecadação de bilheteria – veja-se o caso da infinidade de filmes de Velozes e Furiosos), fixando-se também nos livros (difícil uma obra para o público adolescente não sair de uma paulada só já como trilogia e não raro com um filme chegando aos cinemas simultaneamente). Recentemente, E. L. James incorreu em novo delito ao lançar o sofrível Cinquenta Tons pela perspectiva do galã, após o sucesso da trilogia e do filme.

Enfim. Adiante.

Nada contra o lucro, embora espremer as possibilidades de um livro e seus personagens ad nauseam não me pareça algo útil para a literatura. Porém, se o autor concorda com os interesses da editora – e os próprios interesses em faturar umas patacas a mais, sem precisar criar algo novo -, ao menos é o autor “original” que vai continuar escrevendo e tirando do fundo do pacote mais umas migalhas para saciar os fãs-leitores.

Por outro lado, o livro “A garota na teia de aranha” utiliza-se dos mesmos personagens para continuar e expandir a trilogia Millennium, criada por Stieg Larsson, mas com outro escritor, David Lagercrantz, pois Larsson faleceu em 2004. Ora, a mim soa como pura picaretagem da editora sueca detentora dos direitos da obra (Norstedts), na esteira das quase 85 milhões de cópias que a trilogia vendeu, além dos filmes (o sueco, de 2009, e o de Hollywood, com Daniel Craig, em 2011).

Larsson trabalhava no quarto livro quando faleceu em razão de um ataque cardíaco. Nove anos depois, em dezembro de 2013, os responsáveis pela Norstedts divulgaram que seria lançada a continuação da trilogia Millennium, mas com outro escritor e deixando de lado o que Larsson havia iniciado.

Ora, Stieg Larsson, como qualquer outro ser humano, era único em suas ideias, pensamentos, sentimentos. Cresceu com um tipo de educação, passando por sabe-se lá quais ambientes – bons, ruins, agitados etc. Teve amigos, simpatias, antipatias, casos amorosos. Sofreu, riu, odiou, amou. Teve filmes, livros e músicas preferidos. Tudo contribuindo para torná-lo único. E em algum momento da vida ele projetou escrever uma série de livros com os personagens X e Y, que pensariam dessa e daquela forma, tomariam atitudes assim e assado, se comportariam de tal e tal forma sob as circunstâncias A e B e etc. E entregou três livros como havia imaginado.

A criação, percebe-se, é algo muito complexo e que só pode ser continuado, quando for o caso, pelo próprio criador. Por mais que alguém copie o estilo, tente preservar as características dos personagens etc, jamais se saberá qual seria o destino final que o criador daria ou o que ele previa fazer com aqueles personagens.

Um drible no estilo Garrincha jamais será um drible do Garrincha. Fazer um filme no estilo Kubrick jamais será um filme do Kubrick. Por isso as obras são únicas e só se pode reproduzi-las ou imprimi-las aos milhões para que as pessoas as admirem. Mas nunca alguém poderia ter a audácia de se propor a continuá-las.

A editora Norstedts deveria ter tido a decência e o respeito à memória do escritor e evitar a absurda “quarta parte da série Millennium”.

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Há dez anos houve no mundo virtual uma infestação de falsos textos de Luís Fernando Veríssimo. O orkut estava cheio deles. Qualquer um minimamente familiarizado com a obra do filho de Erico mataria na segunda linha que os textos, apesar de engraçados, não tinham metade da qualidade que seria esperada; pelo contrário, o humor era até chulo em alguns casos e a linguagem bastante pobre.

É o que acontece agora. Alguém se apropriou dos personagens de Stieg Larsson e escreveu um livro. A diferença é que se conhece o embusteiro.
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Sobre Lagercrantz, trata-se de um jornalista esportivo sueco que angariou certa fama com a biografia de Zlatan Ibrahimovic – e sobre tal “biografia”, admitiu ter inventado boa parte das declarações do centroavante. Claro que a editora Norstedts não estava preocupada com isso quando o contratou. “A bio do Zlatan bombou, hein? Vamos chamar esse cara para fazer um livro do Stieg”. Ridículo. A viúva de Larsson, Eva Gabrielsson, a propósito, em entrevistas afirmou que a editora sueca passa por dificuldades financeiras – o que não é de se duvidar…

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Obs: já foi época em que uma série de livros tinha como autor Erico Veríssimo (O tempo e o vento) ou Henry Miller (trilogia da Crucificação Rosada), e terminava no ponto final determinado pelo escritor.

“O menino do pijama listrado”, John Boyne.

O final da história é bastante “adivinhável”, mas nem assim perde-se o ritmo e a ansiedade para chegar às últimas linhas é constante – e a emoção também se faz presente, com a imersão no que está posto pelo autor.

A história de um menino – Bruno – que, em função das atribuições do pai, ligado ao Terceiro Reich, vai morar próximo a um campo de concentração e lá encontra outro garoto – o judeu Schmuel – é profundamente marcante. A inocência de ambos e as referências ao Führer e a Auschwitz pela visão destes merece destaque.

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Com base na obra de John Boyne foi lançado um filme em 2008, com Vera Farmiga como a mãe de Bruno (interpretado por Asa Butterfield) e Jack Scanlon como Schmuel, direção de Mark Herman. O filme não pode se comparar ao livro, em que pesem as boas interpretações dos atores que deram vida aos personagens mirins, entre outras coisas por ser um filme que, comparado a “A lista de Schindler” e “O Pianista”, parecer ter sido feito por um grupo de estudantes sem recursos técnicos.

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Nota 10 para o livro e 5 para o filme.

“Papillon”, Henri Charriere – em pouquíssimas linhas

A polêmica sobre a verdadeira autoria do livro (Henri Charrière? Rene Belbenoit?) não diminui a fascinação pela história da espetacular fuga da Ilha do Diabo – presídio mantido pela França na Guiana Francesa e desativado há quase 80 anos – por um criminoso de menor periculosidade. Ao longo de mais de 700 páginas e muitas e muitas histórias, algumas acabam soando rocambolescas, inverossímeis, mas ainda assim deliciosas de ler e com alto nível de interesse e tensão durante todo o tempo.

No ano de 1971, três anos após o lançamento do livro, Papillon foi levado às telas imagetendo Steve McQueen no papel principal.

A edição é da Bertrand Brasil e a tradução de Mario Varela Soares.

Nota: 9.

“Assassinato no Expresso Oriente”, Agatha Christie – rápida análise.

“Dona Carmosina bebera-lhe as palavras, uma a uma. Assídua leitora de romances policiais, admiradora de Agatha Christie, sentia-se a própria miss Marple em Santana do Agreste.” Após ler este trecho em “Tieta do Agreste”, de Jorge Amado, pág. 252, despertou em mim a vontade de ler algo da célebre autora britânica. Visitei alguns sites e 3 obras dela foram citadas em todos com destaque – todas “estreladas” por Hercule  Poirot -, a saber: “O assassinato de Roger Ackroyd”, “O caso dos dez negrinhos”, “Assassinato no Expresso Oriente”.

Adquiri o pocket de “Assassinato no…” da editora L&PM e o li em duas ou três tardes de descanso, espichado em uma rede. A história, em resumo, é a seguinte: um trem de passageiros fica preso em uma nevasca e, lógico, acontece um crime em um dos vagões. Entre todos os passageiros, há um que pode solucionar o caso sem maior alarde ou prejuízo. Claro que se trata de Hercule Poirot.

A solução do caso é engenhosa. Christie constrói um labirinto que parece sem saída para depois apresentar as várias portas de escape em uma reviravolta de poucas linhas.

Gostei, mas não tanto quanto imaginava – quem sabe lendo mais um ou outro dela.

*****

A escrita é simples, direta, não chega a acontecer uma tensão, apenas uma curiosidade para saber quem cometeu o delito. É um bom passatempo, bom para ler quando se quer descansar.

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Poirot é um detetive que se vale mais da psicologia e de uma percepção das coisas mais apurada que a dos meros mortais para chegar a uma conclusão. Eu prefiro a crueza de Philip Marlowe.

Nota 6,5.

Correção – Michael Crichton.

Jurava que havia quase 20 anos não lia M. Crichton, quando “descobri” que li, há menos de 3, “Assédio Sexual” – mas achei tão ruim que havia guardado apenas a memória daquele mais “antigo”, “Armadilha Aérea”.

“Sol nascente”, Michael Crichton

solEditora/páginas: Rocco e L&PM Pocket, 400

Traduzido por: Aulyde Soares Rodrigues

Breve análise: dia desses me espantei ao me dar conta de que o primeiro – e único – livro que havia lido do autor Michael Crichton (falecido em 2008) havia sido “Armadilha Aérea”, há quase duas décadas (a obra é de 1997). Com 16, 17 anos, foi meu segundo livro dito “sério”* após “Acima de qualquer suspeita”, de Scott Turow, que li em 1995 – uma edição da Record, cujas folhas hoje já estão mais amareladas que o uniforme do Norwich City (aliás, adquiri para o Kindle… Espero que a tela não fique amarelada…)… Enfim, lembro que aquele primeiro livro de Crichton causou-me profunda alegria e ansiedade para descobrir o desfecho da história e decidi pegar a Michael Crichton Road mais uma vez, com “Sol nascente”.

Foi uma volta ao passado. Sem pré-julgamentos, sem o saco cheio de autores seriais de suspense que Dan Brown me proporcionou, apenas me atirei à história como se fosse assistir a um filme de ação ininterrupta e com algum suspense. E a experiência, se não tão marcante como nos tempos do colegial, ao menos proporcionou bons momentos.

O livro tem uma questão de “nós (norte-americanos) x eles (japoneses)” na questão comercial, com Crichton se valendo da ficção para descer o cacete (há um posfácio no qual o autor dá uma pincelada, e também na bibliografia) nas relações comerciais entre os dois países. Fora isso… Há um crime. Há japoneses. Figurões norte-americanos. Corrupção. E um policial com a carreira a meio mastro que é designado para o caso (Peter Smith), ajudado por um veterano que é ‘o cara’ (John Connor). Claro que tem o “tira” toscão, no caso, Tom Graham, que não suporta os asiáticos.

Expor mais do que isso não faria sentido.

E partindo disso, Michael Crichton mais uma vez deu aula de narração e de como manter o interesse do leitor até o final. Boa forma de entretenimento.

***

O livro deu origem a um filme, com Sean Connery (gosto dos filmes dele, mas nada como a  imitação de Renton e Sickboy em Trainspotting), Wesley Snipes (nunca assisti) e Harvey Keitel (fã). Não assisti, conferi no IMDB e a nota média é 6,2.

 

*autores clássicos nacionais não devem ser lidos aos 13, 14, 15… fala sério, de cada 100 moleques, 1 vai tirar algum proveito. Por isso os li mais tarde, aos vinte e poucos. Gostei muito.

Nota: 8

“1Q84 – livro 1”, Haruki Murakami – breve análise

1Q84Editora/páginas: Alfaguara, 432

Traduzido por: Lica Hashimoto

Breve análise: Aomame é uma matadora de aluguel, estilo Dexter, ao passo que Tengo, o outro personagem principal, é professor de matemática e escritor. O começo é um tanto monótono, mas engrena lá pela pág. 155 e, mesmo com uma ou outra quebra de ritmo – como as incursões daquela para “caçar” à noite -, Kurakami conduz o interesse do leitor em alta rotação, já engatando para o livro 2. A destacar, também, a forma como ele une as trajetórias dos personagens citados e traz à luz o universo fantástico do “povo pequenino” – aliás, que diabo é isso? É, vamos ao livro 2…

Nota: 8,5

“Selvagens”, Don Winslow – breve análise

SelvagensEditora/páginas: Intrínseca, 286

Traduzido por: Alexandre Martins

Breve exposição: dois amigos – Ben e Chon – mantêm um lucrativo negócio de venda de maconha na Califórnia, na paz e tranquilidade, dividindo a mesma mulher, O – de Ophelia -, até que o Cartel de Baja decide tomar conta do pedaço. Eles se recusam a aceitar a “proposta” de controle dos mexicanos, os quais, para forçar a aceitação, sequestram O e ameaçam decapitá-la. Os traficantes “do bem”, então, planejam resgatá-la e também se vingar dos cucarachas.

O livro se desenvolve em ritmo de videoclipe, muitos diálogos, verbo, verbo, verbo, Don Winslow deve ter pensado desde o começo em um script para Hollywood. A obra, se não é de todo rasteira, também não traz absolutamente nada em termos de “uou, tem coisas inesquecíveis aqui”. A leitura é ágil, fácil, propícia para ler com o cérebro em stand by, esquecível.

Nos anos 1990 se diria que foi produzido para a “geração MTV”, mas hoje está mais para quem tem preguiça de ler algo minimamente complexo.

Li após ter tido a curiosidade despertada pelo bom filme do Oliver Stone (seguiu bem o livro, apresentando duas versões para o final:  aquele escrito por Don Winslow e outro, que tirou um pouco o sentido) e me arrependi.

Roteiro, perfeito. Literatura, bem ruim.

Nota: 2

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