Lendo no perigo de uma roda.

Só os livros são eternos.

“Bellini e o labirinto”, Tony Belotto – breve análise

img_2534Integrante do grupo Titãs e também conhecido por ser casado com Malu Mader, Tony Bellotto construiu uma certa fama com seus livros policiais estrelados pelo investigador Remo Bellini.

Decidi ler um deles e o escolhido foi o recente Bellini e o Labirinto (2014). Neste, Remo é chamado para investigar o sumiço de um cantor sertanejo em Goiás. Atual, hein?

O começo é interessante, atiça a curiosidade e chega mesmo a prender o leitor. Porém, em menos de 70 páginas o autor já resvala em clichês do gênero e logo perde o rumo, despencando no abismo do enfado. Não fosse isso o bastante, ainda há ao menos um momento de falsa erudição, da mais pura encheção de linguiça, quando, na página 253, Bellotto nos premia com a pérola “Quantas vezes um advogado não cita uma frase de Sócrates, o grande filósofo grego (…)?” Ora, no contexto é escarrado que a referência é ao filósofo grego e não ao Sócrates finado ex-jogador de futebol. Ademais, qualquer criatura minimamente familiarizada com o mundo, com pouco mais de três neurônios funcionais, sabe quem foi Sócrates, ainda que de forma superficial.

Enfim. Decepcionante.

Nota 3.

“Os filhos da noite”, Dennis Lehane – breve análise

filhos-da-noiteLehane tem o mérito de escrever livros bem distintos, evitando a repetição de fórmulas – algo que Dan Brown faz ao ponto de dar náuseas.

A expectativa para “Os filhos…” era bastante alta, especialmente após “Paciente 67” e “Gone, baby, gone”, e a decepção, por isso, foi grande. Não que seja uma obra ruim. Contudo, acabou sendo a parte baixa da montanha-russa. O bom é que vai subir de novo.

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Focada no gangsterismo, praticamente um film noir, talvez dê mais certo no cinema.

Nota: um esforçado 6.

“Os Íntimos”, Inês Pedrosa – brevíssima análise

Cinco amigos – Afonso, Augusto, Filipe, Guilherme e Pedro – se reúnem em um bar para assistir a um clássico entre Porto e Benfica, e enquanto rola a peleja na televisão, desfiam, cada um a seu tempo e modo, lembranças e opiniões sobre trabalho, mulheres, amor, sexo, e o que pensam um sobre o outro. Excelente. Difícil não se identificar.
Afonso, à página 196, diz: “quando se é íntimo não se precisa de falar de nada”. Pra mim faz todo o sentido.

Nota: 10

“Papillon”, Henri Charrière – breve análise (again)

Há desconfianças sobre a veracidade do histórico relato do francês condenado a uma pena desumana em uma ilha prisão degradante em XXX. Considerando-se que tudo partiu da lembrança do apenado-escritor, trata-se de um raro trabalho de recordação e de uma memória prodigiosa que a mim causa algum desconforto invejoso – embora o próprio Charrière tenha admitido que algumas passagens são fruto de sua imaginação. Mas já li e reli e a obra ainda me encanta. E talvez eu tenha escrito a mesma coisa antes… ou não.

Nota 10.

“Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”, David Foster Wallace

Pág. 118.

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Galveston, O gigante enterrado, A arte de produzir efeito sem causa – Nico Pizzolatto, Kazuo Ishiguro e Lourenço Mutarelli

“Galveston” (Nic Pizzolatto, ed. Intrínseca, 234 pág.). Vendido como um thriller, um suspense noir moderno, não passa de um livro pronto para virar um filme de ação de baixo orçamento – aliás, nenhuma surpresa em sendo o autor “criador da série da HBO True Detective”, como está destacado na capa. Não há profundidade nos personagens, tampouco um suspense que prenda a atenção do leitor. A obra é permeada de clichês, em nenhum momento se acredita na história que está sendo narrada. Roy Cady é um “cara durão”, assassino profissional que escapa de uma emboscada armada pelo chefe – outro crápula -, que atualmente namora sua ex-mulher, acompanhado por uma adolescente (Rocky) que testemunhou a ação. Eles fogem, e logo a dupla vira trio quando Rocky leva a filha junto. Depois disso pouco ou nada acontece, situações banais, estúpidas, permeado por um falso ar de “thriller intelectualizado”. Apenas ridículo. Nota 4,0.
“O Gigante Enterrado” (Kazuo Ishiguro, ed. Companhia das Letras, 396 pág.). Primeiro romance do japonês desde “Não me abandone jamais”, de 2005. História fantástica, com ogros, dragões, cavaleiros… Uma história de jornadas: de Axl e Beatrice em busca da superação de um trauma; de Sir Gawain para proteger uma dragoa e de Winstan para matá-la. Uma história de amor, de persistência, de honra, de lealdade. O final é instigante e faz pensar no que teria acontecido a partir dali. Outras observações: uma ou outra passagem faz pensar em “A Divina Comédia”, como o barqueiro (pág. 48) e Beatrice = Beatriz, quem conduz; o último parágrafo da página 52. Névoa do esquecimento remete à “Odisseia”, de Homero. Nota 10
“A arte de produzir efeito sem causa” (Lourenço Mutarelli, ed. Companhia das Letras, 206 pág.). Junior vai morar com o pai após ser traído pela mulher, sair de casa e largar o emprego. No apartamento de sênior mora Bruna, uma estudante de vinte e poucos anos que aluga um quarto. O cenário é de classe média baixa, e a crueza de Mutarelli faz enxergar o sofá puído, a TV de tubo e antena, o copo de requeijão, um maço de cigarros vagabundos, o isqueiro Bic, o ambiente sépia e sem perspectiva que cerca os personagens. Junior não parece ter chance de se reerguer, encontra-se prostrado e procurando culpados pela sua situação. Adiante, misteriosos pacotes com mensagens cifradas começam a chegar para ele, contribuindo para sua decadência também mental. Aos poucos Sênior e Bruna vão se contaminando por Junior e o final não tem qualquer traço de esperança. Bom livro. Nota 8,0

Contra “A garota na teia de aranha” – Millennium não deveria ter sequência.

Chegou ao Brasil, via edição da Companhia das Letras, em agosto, o livro “A garota na teia de aranha”, o quarto da série Millennium, de Stieg Larsson.

É a onda de continuações, já tão popular em filmes de sucesso (por “sucesso” tem-se fundamentalmente o valor da arrecadação de bilheteria – veja-se o caso da infinidade de filmes de Velozes e Furiosos), fixando-se também nos livros (difícil uma obra para o público adolescente não sair de uma paulada só já como trilogia e não raro com um filme chegando aos cinemas simultaneamente). Recentemente, E. L. James incorreu em novo delito ao lançar o sofrível Cinquenta Tons pela perspectiva do galã, após o sucesso da trilogia e do filme.

Enfim. Adiante.

Nada contra o lucro, embora espremer as possibilidades de um livro e seus personagens ad nauseam não me pareça algo útil para a literatura. Porém, se o autor concorda com os interesses da editora – e os próprios interesses em faturar umas patacas a mais, sem precisar criar algo novo -, ao menos é o autor “original” que vai continuar escrevendo e tirando do fundo do pacote mais umas migalhas para saciar os fãs-leitores.

Por outro lado, o livro “A garota na teia de aranha” utiliza-se dos mesmos personagens para continuar e expandir a trilogia Millennium, criada por Stieg Larsson, mas com outro escritor, David Lagercrantz, pois Larsson faleceu em 2004. Ora, a mim soa como pura picaretagem da editora sueca detentora dos direitos da obra (Norstedts), na esteira das quase 85 milhões de cópias que a trilogia vendeu, além dos filmes (o sueco, de 2009, e o de Hollywood, com Daniel Craig, em 2011).

Larsson trabalhava no quarto livro quando faleceu em razão de um ataque cardíaco. Nove anos depois, em dezembro de 2013, os responsáveis pela Norstedts divulgaram que seria lançada a continuação da trilogia Millennium, mas com outro escritor e deixando de lado o que Larsson havia iniciado.

Ora, Stieg Larsson, como qualquer outro ser humano, era único em suas ideias, pensamentos, sentimentos. Cresceu com um tipo de educação, passando por sabe-se lá quais ambientes – bons, ruins, agitados etc. Teve amigos, simpatias, antipatias, casos amorosos. Sofreu, riu, odiou, amou. Teve filmes, livros e músicas preferidos. Tudo contribuindo para torná-lo único. E em algum momento da vida ele projetou escrever uma série de livros com os personagens X e Y, que pensariam dessa e daquela forma, tomariam atitudes assim e assado, se comportariam de tal e tal forma sob as circunstâncias A e B e etc. E entregou três livros como havia imaginado.

A criação, percebe-se, é algo muito complexo e que só pode ser continuado, quando for o caso, pelo próprio criador. Por mais que alguém copie o estilo, tente preservar as características dos personagens etc, jamais se saberá qual seria o destino final que o criador daria ou o que ele previa fazer com aqueles personagens.

Um drible no estilo Garrincha jamais será um drible do Garrincha. Fazer um filme no estilo Kubrick jamais será um filme do Kubrick. Por isso as obras são únicas e só se pode reproduzi-las ou imprimi-las aos milhões para que as pessoas as admirem. Mas nunca alguém poderia ter a audácia de se propor a continuá-las.

A editora Norstedts deveria ter tido a decência e o respeito à memória do escritor e evitar a absurda “quarta parte da série Millennium”.

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Há dez anos houve no mundo virtual uma infestação de falsos textos de Luís Fernando Veríssimo. O orkut estava cheio deles. Qualquer um minimamente familiarizado com a obra do filho de Erico mataria na segunda linha que os textos, apesar de engraçados, não tinham metade da qualidade que seria esperada; pelo contrário, o humor era até chulo em alguns casos e a linguagem bastante pobre.

É o que acontece agora. Alguém se apropriou dos personagens de Stieg Larsson e escreveu um livro. A diferença é que se conhece o embusteiro.
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Sobre Lagercrantz, trata-se de um jornalista esportivo sueco que angariou certa fama com a biografia de Zlatan Ibrahimovic – e sobre tal “biografia”, admitiu ter inventado boa parte das declarações do centroavante. Claro que a editora Norstedts não estava preocupada com isso quando o contratou. “A bio do Zlatan bombou, hein? Vamos chamar esse cara para fazer um livro do Stieg”. Ridículo. A viúva de Larsson, Eva Gabrielsson, a propósito, em entrevistas afirmou que a editora sueca passa por dificuldades financeiras – o que não é de se duvidar…

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Obs: já foi época em que uma série de livros tinha como autor Erico Veríssimo (O tempo e o vento) ou Henry Miller (trilogia da Crucificação Rosada), e terminava no ponto final determinado pelo escritor.

“O menino do pijama listrado”, John Boyne.

O final da história é bastante “adivinhável”, mas nem assim perde-se o ritmo e a ansiedade para chegar às últimas linhas é constante – e a emoção também se faz presente, com a imersão no que está posto pelo autor.

A história de um menino – Bruno – que, em função das atribuições do pai, ligado ao Terceiro Reich, vai morar próximo a um campo de concentração e lá encontra outro garoto – o judeu Schmuel – é profundamente marcante. A inocência de ambos e as referências ao Führer e a Auschwitz pela visão destes merece destaque.

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Com base na obra de John Boyne foi lançado um filme em 2008, com Vera Farmiga como a mãe de Bruno (interpretado por Asa Butterfield) e Jack Scanlon como Schmuel, direção de Mark Herman. O filme não pode se comparar ao livro, em que pesem as boas interpretações dos atores que deram vida aos personagens mirins, entre outras coisas por ser um filme que, comparado a “A lista de Schindler” e “O Pianista”, parecer ter sido feito por um grupo de estudantes sem recursos técnicos.

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Nota 10 para o livro e 5 para o filme.

“Papillon”, Henri Charriere – em pouquíssimas linhas

A polêmica sobre a verdadeira autoria do livro (Henri Charrière? Rene Belbenoit?) não diminui a fascinação pela história da espetacular fuga da Ilha do Diabo – presídio mantido pela França na Guiana Francesa e desativado há quase 80 anos – por um criminoso de menor periculosidade. Ao longo de mais de 700 páginas e muitas e muitas histórias, algumas acabam soando rocambolescas, inverossímeis, mas ainda assim deliciosas de ler e com alto nível de interesse e tensão durante todo o tempo.

No ano de 1971, três anos após o lançamento do livro, Papillon foi levado às telas imagetendo Steve McQueen no papel principal.

A edição é da Bertrand Brasil e a tradução de Mario Varela Soares.

Nota: 9.

“Assassinato no Expresso Oriente”, Agatha Christie – rápida análise.

“Dona Carmosina bebera-lhe as palavras, uma a uma. Assídua leitora de romances policiais, admiradora de Agatha Christie, sentia-se a própria miss Marple em Santana do Agreste.” Após ler este trecho em “Tieta do Agreste”, de Jorge Amado, pág. 252, despertou em mim a vontade de ler algo da célebre autora britânica. Visitei alguns sites e 3 obras dela foram citadas em todos com destaque – todas “estreladas” por Hercule  Poirot -, a saber: “O assassinato de Roger Ackroyd”, “O caso dos dez negrinhos”, “Assassinato no Expresso Oriente”.

Adquiri o pocket de “Assassinato no…” da editora L&PM e o li em duas ou três tardes de descanso, espichado em uma rede. A história, em resumo, é a seguinte: um trem de passageiros fica preso em uma nevasca e, lógico, acontece um crime em um dos vagões. Entre todos os passageiros, há um que pode solucionar o caso sem maior alarde ou prejuízo. Claro que se trata de Hercule Poirot.

A solução do caso é engenhosa. Christie constrói um labirinto que parece sem saída para depois apresentar as várias portas de escape em uma reviravolta de poucas linhas.

Gostei, mas não tanto quanto imaginava – quem sabe lendo mais um ou outro dela.

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A escrita é simples, direta, não chega a acontecer uma tensão, apenas uma curiosidade para saber quem cometeu o delito. É um bom passatempo, bom para ler quando se quer descansar.

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Poirot é um detetive que se vale mais da psicologia e de uma percepção das coisas mais apurada que a dos meros mortais para chegar a uma conclusão. Eu prefiro a crueza de Philip Marlowe.

Nota 6,5.

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